Exercícios de escrita
Sobre propostas diferentes da sua zona de conforto
Quem já acompanha a coluna vai notar uma diferença no título da publicação. Quem não acompanha, bem… seja bem-vindo.
Queria compartilhar com vocês algumas das propostas de exercícios que os selecionados do Prêmio Carioca de Contos (categoria na qual eu me incluo) receberam nas aulas da professora Cláudia Chigres e como eu busquei responder ao desafio. Contextualizando: o prêmio mencionado busca acrescentar bagagem literária aos seus contemplados. Tivemos aulas (no plural mesmo! Olha só) não só com a professora Cláudia, mas também com o professor Leonardo Tonus. Ela da PUC-Rio, ele da Nouvelle-Sorbonne, très chic.
Nessa semana também tivemos um encontro com a sensacional autora Eliana Alves Cruz. Pudemos debater um bocado sobre a trajetória dela e ganhar um pouco de inspiração no que diz respeito às nossas pretensões de carreira.
Acabei me lembrando dessas aulas onde fomos desafiados a sair um pouco da zona de conforto e experimentar coisas novas.
Espero que gostem.
1 – Escreva alguma cena que envolva a memória, procurando presentificar os afetos.
Igual, mas diferente
Já percebi que acabei ficando igual a você, sabe? Acordando cedo. Você acordava cedo demais pro meu gosto e eu pensava “pra quê?”. Hoje eu entendo. A calma, o silêncio, ou o quase silêncio com os barulhos da rua. Os primeiros pássaros, uma moto aqui, um carro ali. Mas é tudo lá fora. Aqui dentro é o levantar da tampa do vaso, o xixi batendo na água, o fluxo da descarga, a torneira aberta, o escovar de dentes. Assim cedo, parece que o botão do volume fica desregulado.
Faço do jeito que você me ensinou: acendo o fogão, a boca lá do canto. Ouvi dizer que todo mundo tem uma boca do fogão favorita. Qual era a sua? Encho a chaleira sem saber quantos eme ele, quantos litros, na base do olho, até aquela marquinha que você me disse que era pra encher. Ponho a água para esquentar. Esvazio a garrafa do resto de café que sobrou de ontem. Agora presta bem atenção que eu vou te mostrar como eu faço.
Pego o filtro de papel na caixa. Antes de colocar no porta filtro, precisa fazer duas dobras nele, não só uma como você fazia. Uma pra esquerda e outra pra direita, para ele não ficar solto. Agora precisa escaldar antes de colocar o pó, de maneira que o gosto de papel não se misture com o café. Já viu que o meu é diferente, não é? Esse grão aqui tem notas sensoriais de baunilha e chocolate trufado. Quatro colheres tá de bom tamanho. Vamos moer por oito segundos, moagem média pra fina. Eu sei, eu sei. O teu café era só pó e água. Era bom. Mas o meu é melhor.
E o seu café tinha gosto de programa matinal, de ondas AM no radinho de pilha, de fofoca das celebridades, de simpatia, de horóscopo e das ofertas do Guanabara. O meu café tem gosto de jazz. De cordas, metais, percussão, de Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Nat King Cole. Não sei porque, mas café combina com jazz. E com rádio AM também.
Olha a água! Não, não precisa esperar fumegar. É quando a água está prestes a ferver. Ouvidos atentos aos sons da manhã. A água prestes a ferver é um deles. Agora a gente despeja uma vez pra assentar a cama de café. Pois é, o café tem cama também. Mais um despejo, bem no meio do filtro, e fazendo movimentos circulares para a água vir até a boca. Tá sentindo o cheiro de chocolate? Bom, né? Agora que a água já desceu quase toda, vamos ao segundo despejo. Mesmo esquema.
Essa é a parte em que eu sirvo na sua xícara e na minha caneca. Acabei me acostumando a tomar café em quantidade grande, por isso que você chamava minha caneca de “baldinho”. Agora que a garrafa já está cheia eu rosqueio a tampa e dou uma balançada para homogeneizar a bebida ali dentro. Levo a minha caneca e a sua xícara até o parapeito da janela da cozinha, abro a janela e admiro a vista que a gente tem do morro. Igual a você, eu nunca me canso. Pego a minha caneca e faço um brinde com a sua xícara. Dou o meu primeiro gole de café do dia, saboreio devagar a bebida e deixo a janela, o morro e a sua xícara para trás. Espero que tenha gostado do café. Não é o mesmo que você fazia e nem eu sou a mesma pessoa que aprendeu a fazer contigo lá atrás. Mas sempre serei seu filho, pode confiar.
2 – Escreva um texto de movimento no pretérito e no presente. Compare-os.
Consciência de classe
Ontem
Ela acordou mas não dormiu. Prendeu a respiração, mas logo perdeu o fôlego. Pegou o celular, leu as mensagens e não respondeu nenhuma. Saiu da cama correndo pro chuveiro. Não teve tempo para skincare. Engoliu uma barra de cereal e diluiu o café solúvel. Chegou no ponto e viu o ônibus saindo, todo dia isso. Xingou o motorista. Começou o trabalho antes de todo mundo. Respondeu e-mails sem enviar o anexo. Pediu desculpas. Porque errou. Ouviu desaforos. Pediu mais desculpas. Fez hora extra. A empresa precisava dela. Na volta, chorou dentro do ônibus. Requentou a sopa para jantar. Naquela noite ficou em casa.
Hoje
Ela acorda bem porque dorme tranquila. Respira fundo e ouve o som dos pássaros. Pega o celular e põe música para tocar. Sai da cama e se alonga antes do chuveiro. Escolhe a fragrância do pós banho. Passa geleia de morango na torrada enquanto espera a água esquentar para beber seu café coado. Chega no ponto sem relógio no pulso, todo dia isso. Sorri para o motorista. Só começa o trabalho quando cumprimenta todo mundo. Anexa os arquivos nos e-mails. Pede um aumento. Porque merece. Ouve desaforos. Pede mais respeito. Sai pontualmente. A empresa sobrevive sem ela. Na volta, lê um livro dentro do ônibus. Pede um drink no bar. Hoje à noite ela não fica em casa.
3 – Crie gestos para a sensação de sentir frio, de estar cansado, de estar entediado, feliz, etc.
São Cristóvão Station
Cartão na catraca, luz verde, roleta girando. Por que todo mundo fica parado? É pra confirmar que a água é molhada? Tira o guarda-chuva da mochila, pendurada na frente do corpo, pede licença. Golpe de ar no rosto, nem parece que estamos em janeiro. Mas podia ser pior, podia ser março. Aí era muito mais água, ninguém saindo do prédio. Dobra a esquina e confere a entrada da faculdade. Devia ser proibido estudante e trabalhador chegarem e saírem no mesmo horário, só deixa o transporte mais lotado. Olha pro jardim, pro pátio da entrada. Sorri ao ver os jovens sendo bobos, falando alto, brincando, paquerando. A cabeça leve sobre os ombros. Nem parecia que dez anos atrás era ele com mochila nas costas e só o dinheiro da passagem no bolso. Não dá tempo de ficar parado olhando. Todo mundo andando rápido, colidindo guarda-chuvas. Só não tem pressa quem fica ali no Francês. Maluquice: ali é danado pra ficar tudo cheio, rapidinho. Ele não é o Tom Hanks pra ficar ilhado. Aperta o passo pra subir a rampa da estação. Finge que não vê os corpos estirados por cima dos papelões, dormindo indiferentes ao som e à fúria da água. Travam a passagem, mas ninguém destrava a vida deles, se é que isso é vida. Desvia do entregador descendo a rampa de bicicleta, mochila nas costas. Alguém, em algum lugar dessa cidade alagada, pede comida e o empreendedor individual obedece ao chamado do celular pedalando pelo pão que o tinhoso amassa todo dia. O palavrão chega na ponta da língua, mas engole de volta. Não vale a pena. Recolhe o guarda-chuva, agora sob a proteção da passarela coberta. Mais papelões, mais gente dormindo, até junto de vira-latas, mais miséria. E a passagem do trem vai aumentar no mês que vem. Diabo de vida injusta. O painel eletrônico anuncia a estimativa de chegada dos trens. Vinte minutos até chegar o dele. Tempo suficiente para a plataforma ficar ainda mais cheia. Que idiotice colocar dois ramais na mesma plataforma. Junta Japeri, junta Santa Cruz, cambada de gente. Passa o vendedor por cima de todo mundo, com capinha de celular, com pipoca, com água, com fone de ouvido, com latão, com bóbiguds. O virar de pescoços, o barulho dos trilhos e os empurrões anunciam a composição chegando. Os passageiros se apertam, tentando adivinhar onde as portas vão se abrir. Os mais experientes já sabem o local exato. Apertam-se. Deu sorte, ficou de cara pra porta. Assim que ela abrir, ele entra e pega aquele banco ali que está vazio. Blim-blom, blim-blom. Nada da porta abrir. Blim-blom, blim-blom. Alguém dá um tapão na porta. Como é que é, maquinista? Blim-blom, blim-blom. As portas se abrem e ele não tem domínio sobre o próprio corpo, mas de alguma maneira foi empurrado pela manada e conseguiu se sentar. Se bobear, até tira um cochilo. Blim-blom, blim-blom. Alguém pergunta “é Santa Cruz?”. Blim-Blom, blim-blom. “Né não. É Japeri”. Blim-blom, blim-blom. As portas se fecham.
Que merda.
4 . Imagine um personagem que pense por meio de frases longas. Registre na página o ponto de vista desse personagem.
- Imagine outro personagem que pense por meio de frases curtas. Registre.
- Faça um diálogo entre esses dois personagens.
Cães e Gatos
- Hmmmmm...
- Bom dia, flor do dia! Vamos acordar? Um dia bonito desses, um domingão de sol, gostosinho, café na mesa, pão de padaria com opção de pão branco e pão moreno, sempre gerando polêmica entre os clientes e dor de cabeça para o padeiro.
- Tá quente.
- E piora, queridona. Não são nem oito da manhã ainda, mas ali mais ou menos quando eu estava dando a volta no obelisco, já não tinha mais vento correndo, o sol já dando murro na cabeça e eu pensando “bem que eu achei que esse protetor solar novo não é lá essas coisas” porque vinte minutos de corrida e não tinha mais nada pra contar história.
- Você foi lá fora.
- Achei que eu já tinha deixado claro quando mencionei que tinha pão, apesar de ter aprendido a fazer pão durante a pandemia. Ou algo parecido. Só não comprei café também porque nem pensar comprar aquele que vende lá na padaria, porque só dá extraforte. Pior melhor coisa que a gente fez foi começar a beber café gourmet, porque o paladar vira outro, mas que é caro, ah se é…
- Cadê meu telefone?
- Toma, depois de desligar o seu terceiro despertador que foi tão ignorado quanto os anteriores, deixei o telefone aqui em cima da cômoda. É um hábito péssimo que a gente tem, de levantar e pegar logo o telefone. Doutor Drauzio Varella já deve estar cansado de falar que não pode, que faz mal, e não sei o quê, e cá estamos. Um monte de notificação, de notícia, de newsletter na caixa de e-mail, do meme novo, do vídeo de gatinho que a gente não sabe se é IA, quando vê… já perdeu uma hora inteira nessa preguiça.
- Vou trocar de roupa.
- Pra quê? Você fica tão bonita de camisola. Relaxa, hoje é domingo. Fica à vontade porque está quente mesmo. No verão quase roupa nenhuma fica confortável, a sensação é de querer tirar tudo e não sair debaixo do chuveiro ou aquela vontade de pegar uma piscininha. Por sinal, faz tempo que a gente não vai em um lugar com piscina, não é mesmo? A gente podia aproveitar que esse ano é cheio de feriado emendado e ver se consegue dar uma fugida pra serra, ou pra Região dos Lagos lá na casa do meu primo, hein? O que me diz?
- Quero o divórcio.
- Hein? É o quê?
- É. Divórcio. Não sei se te aguento não. É muita energia logo cedo de manhã.
5 – A partir de uma anotação inicial, desenvolver o texto em pelo menos três versões, usando modos\estilo diferentes.
Um dia normal em Copacabana
Fato: garoto negro colide com uma idosa branca numa esquina em Copacabana fazendo um ônibus frear bruscamente. Policial em ronda faz uma abordagem imediata buscando prender o garoto. Um homem segurando uma garrafa de cachaça começa a discutir com o policial em defesa do garoto. Um vira-lata avança latindo em direção ao policial. Quando a idosa consegue se recompor, pede para o policial ir embora.
Relatório: informando o QG acerca de ocorrência às dez da manhã na esquina da Siqueira Campos com a Nossa Senhora de Copacabana, altura da praça Serzedelo Corrêa. O elemento menor inimputável atacou cidadã de bem, idosa, claramente na intenção de subtrair, por meio de violência, dinheiro e outros itens em benefício próprio. Os dois no chão, já busquei a arma para, se necessário fosse, aplicar no sujeito de menor. O meliante se levantou primeiro que a vítima e recebeu ordem de pôr as mãos na cabeça. A ação de revista foi impedida por um transeunte morador de rua que segurava objeto de potencial ofensivo. Ato contínuo, um cão de rua raivoso, provavelmente usado em ações da quadrilha, avançou em minha direção, criando uma digressão. Buscando manter a vítima em segurança, este policial escoltou a senhora até sua casa. Recomendamos ações ostensivas na área e notificaremos a Secretaria de Ordem Pública acerca de animais raivosos na região.
Entrevista de envolvido no ocorrido: au au au au au au au au au
Transcrição de áudio enviado no grupo de Whatsapp: caraca, neguinho… papo reto… eu achando que de esculacho já tava bom o que eu ia tomar na prova de Matemática hoje! Hã, vou mandar a letra… tava lá na pracinha ali da Siqueira, tá ligado? Ali na barraca dos livros que volta e meia fica na calçada. Tem vez que aparece uns gibizinho neurótico ali que eu me amarro. Já comprei até do Pantera Negra que aqui nós é Wakanda forévi. Aí tava lá, juro pra tu, olhei pra trás, a vovozinha ia atravessar na frente do buzão, papo reto. E não é que ela não viu, que eu posso jurar que ela viu ele vindo lá longe e mermo assim ia se jogar na frente dele. Coração na boca, juro pra tu, corri pra segurar a coroa. Cheguei igual Miles Morales, vapo! Pique filme. Mermão, nem pisquei e já chegou Seu Puliça já como? Hã? Doido pra que eu virasse camiseta de saudade. Pisquei de novo e foi pinguço, foi cachorro, foi geral pra cima do puliça pra ele não achar que tá na Disney, vá tomabanho. Aí a vovozinha, cabelo branquinho pique Tempestade, mandou ele passear. Falar pra professora que já escapei de um esculacho hoje, ela não precisa querer me pegar na curva.
Depoimento em reunião dos Alcoólicos Anônimos: boa noite a todos. Bom, meu nome é Marcelo e essa vai ser a minha primeira noite sóbrio em muito tempo. Acho que essa é a parte que dizem que é a mais difícil, não é? Um dia após o outro, um de cada vez. Eu não consigo me recordar qual foi a minha última noite totalmente sóbrio há muito tempo. Também não me recordo como fui parar naquela calçada hoje de manhã, no estado em que eu estava, parecendo um morador de rua. Eu não sou morador de rua. Eu tenho casa. Eu tenho família. A família que veio me acompanhando e me incentivando a estar aqui na reunião de hoje. Porque eu sinto que Deus escolheu a manhã de hoje para me conceder esse momento de clareza. Na manhã de hoje eu me vi diante do cano de uma arma que estava apontada para um simples menino, depois foi apontada para mim e depois até para um cachorro. Ali eu vi o quanto a vida era frágil e, por isso mesmo, o quanto ela era preciosa. Se o policial quisesse, se o policial fosse despreparado, se um de nós estivesse no lugar errado e na hora errada, era o fim. E eu não fazia ideia do que eu estava fazendo ali. Mas tudo pra Deus tem um propósito. E eu sinto que o propósito d’Ele pra mim hoje foi abrir meus olhos e dizer: nunca mais.
Caderno de anotações de um terapeuta: a paciente Sebastiana confessou algo que vinha escondendo até então em nossas sessões. O que aparentava ser um quadro de depressão leve já havia evoluído para uma tendência suicida. Sebastiana, viúva há cinco anos, aposentada há vinte, sem contato com os filhos e netos, já não enxergava mais propósito na vida e concluiu que não havia mais o que prolongar em sua estadia nesse mundo. Nada em nossas sessões anteriores indicavam a gravidade desse quadro e ela fez questão de me tranquilizar dizendo “não foi culpa sua. Eu só decidi”. Seus planos de ser atropelada foram frustrados por um menino que a impediu de cometer o ato derradeiro mas logo em seguida foi injustamente abordado com violência por um policial. Não é absurdo supor que tal “recompensa” tenha sido concedida ao menino por sua cor de pele. Sebastiana relatou que um morador de rua saiu em defesa do garoto que a salvara e ali teve sua epifania. Sebastiana percebeu que se a vida vale a pena ser protegida, é porque a vida presta. Nossa consulta já está marcada para a próxima semana. Parece-me promissora.

PQP… Que beleza de texto. Me reconheci em duas dessas versões. Parabéns.
Renan, cadê o do suor no ponto de ônibus em dia de calor? Hehe. Eu amei tanto, é um dos meu preferidos, junto com um dia normal em Copa.